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O POLITICAMENTE CORRETO EXIGE QUE TENHAMOS CONTROLE ABSOLUTO SOBRE A LINGUAGEM

O POLITICAMENTE CORRETO EXIGE QUE TENHAMOS CONTROLE ABSOLUTO  SOBRE A LINGUAGEM

Braulino Pereira de Santana, Doutor em Linguística pela UFBA, é professor da UNEB

 

Num mundo em que os excessos do politicamente correto espalham medo (de processos na Justiça) e paranoia generalizada (qualquer um pode assumir o lugar de denunciante), e regulam a linguagem a ponto de uniformizá-la de tal maneira para que todas as falas e as escritas se assemelhem como se todos fôssemos madames polidas empunhando nossas canetas, é preciso lembrar um dos fundamentos básicos do funcionamento da língua – trata-se ela mesma de um órgão do corpo humano.  Um órgão especial e diferente de todos os outros, uma vez adquirido com a convivência com os nossos semelhantes, mas mesmo assim um órgão do nosso corpo.

Pense num bebê que experimenta variados sons – um latido de um cachorro, o chiado de um rádio ligado, o barulho de um carro em movimento, e a mãe dele lhe dizendo coisas. Por que ele não aprende a latir como um cão? Ou a miar como um gato? Ao invés disso, ele assume a língua da mãe como sua também.

Como uma extensão do que o cérebro é capaz de fazer, a linguagem articulada instaura-se também como um pedaço do cérebro humano, e nenhum outro animal tem condições de nascer com um cérebro com essas condições. Como disse um famoso neurolinguista, os animais tiveram azar na evolução nessa área.

Se por um lado podemos pesar nossos atos (de fala) e medirmos as consequências dos impactos daquilo que falamos, por um outro lado muito maior não temos muito controle do que dizemos, uma vez que o jorro que brota de nossas bocas de maneira quase automática trata-se de um órgão em funcionamento. E assim como não temos controle sobre ou não sabemos quando uma próstata ou um fígado podem ser acometidos de células malignas, algo nesses termos pode ser pensado em se tratando da fala. Não temos tempo de planejamento da fala, o quanto temos de planejamento da escrita.

Se teses do politicamente correto têm algum sentido, certas entradas de grandes escritores – dentre eles, os magníficos Lima Barreto e Graciliano Ramos – seriam praticamente inviáveis nos dias de hoje. Também entra nesse escopo Paulo Francis.

Não estou a inculpar ninguém por seus atos de linguagem desmedidos e ofensivos, só estou tentando lembrar que, ao punir (processar, linchar, humilhar, destruir) de maneira desproporcional falas muitas vezes saídas de um inconsciente repleto de esqueletos escondidos, demos chances de algozes roubarem o discurso de vítimas para si para eles mesmos se saírem de vítimas de suas histórias.

Como não questionar quando um empregado é punido por divulgar a filosofia, essa sim que a sua empresa vem praticando há décadas, e não a própria empresa em si? Por isso, ataques de muitos artistas e empregados da Rede Globo ao jornalista William Waack, ao elevar sua fala insensata e grosseira como crime (e assim equipará-la a atitudes mais perniciosas, como atentado físico ou dano moral irreparável), soam desproporcionais demais ao descarregar sobre uma pessoa a culpa do padrão de qualidade que seus próprios patrões praticam, ainda mais em se tratando de uma atitude de fala que pode ser relativizada de muitas maneiras, inclusive de maneira derrogatória. O mais sensato nisso tudo seria condenar ideologias – questionar condutas de órgãos e instituições  – e não só propriamente pessoas.


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