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JACQUELINE: HISTÓRIA DE MILHÕES DE MINUTOS

JACQUELINE: HISTÓRIA DE MILHÕES DE MINUTOS

Hoje, dia 18 de novembro de 2017, minha irmã, Jacqueline Marques de Castro, encantou amigos, parentes e telespectadores de todo o Brasil ao logicar em grande velocidade mental, mesmo sob pressão inclusive daquela cavernosa música de pano de fundo, para encontrar acertadamente o nome do costureiro do vestido da princesa Daiana na recepção na Casa Branca em 1985, depois de já nos ter maravilhado com a resposta à pergunta das moedas, que, a propósito, foi muito mal formulada.

Apesar de ter dito o contrário, creio que particularmente ela é que é a melhor representante da família para esse tipo de desafio, pois é a primogênita do casal e, nessa condição, sentiu mais de perto as borrascas desabarem algumas vezes sobre nossas cabeças, tendo talvez nascido daí a intuição privilegiada de busca de soluções lógicas.  

Não sei se outras oportunidades lhe aparecerão para chamar a atenção dos que a conhecem por sua inteligência apolínea. Jacqueline já lia os clássicos franceses quando criança, tocava piano, depois de ter feito as primeiras experiências na tentativa de arrancar suaves cavatinas do arremedo de cítara que os ambulantes vendiam, e ganhou medalhas, além de outros reconhecimentos que despertavam a atenção dos seus instrutores. Foi pulando de série nas escolas a cada vez que era matriculada em uma, porque os professores notavam que ela estava à frente dos colegas.

Se pudéssemos voltar no tempo, mais ou menos parafraseando o célebre poema controversamente atribuído a Jorge Luiz Borges, acho que ela e eu, hoje, com o mais arejado e mais lógico conhecimento que possuímos das emoções, depois de tanto tempo no ambiente psicoterapêutico, teríamos podido lidar melhor com os abalos que nos arrancaram do centro: chegaríamos então à condição de cinquentenários mais psiquicamente realizados com a poesia da maturidade, mesmo sem realizações que costumam socialmente ornamentar os indivíduos tidos como de sucesso.

Mas para além de toda a lógica desfilada no programa televisivo do encantador Luciano Huck, talvez a poesia tenha passado despercebida a alguns: a infância, nos anos 1960, transcorrida num casarão de Palmas de Monte Alto, cidade estranha a 1.000 Km de Salvador e com menos de 1.000 pessoas, onde fomos parar sem parentes nem amigos inicialmente, um lugar onde a ausência de energia elétrica foi sendo compensada pela candeia do conhecimento paterno.

Bem, estávamos mesmo longe do mundo civilizado, do qual somente tomávamos conhecimento duradouro pela chegada aos correios de Guanambi, meses depois da remessa, dos livros vindos do Estado da Guanabara e também pelos mapas espalhados pela casa como penhor de exigência da formação intelectual que ensina a criança a não se ver como o foco do mundo, afinal, Copérnico, havia 500 anos, tinha deslocado não só o indivíduo mas toda a humanidade terrena do centro do universo...

Aquele casarão algo sombrio talvez devesse ter sido mesmo demolido, como terminou sendo, pois, de pé, poderia fazer desaparecer a nostalgia do tempo poético em que da coleção “Trópicos”, de dez maravilhosos volumes, saltavam para nossa realidade, pela primeira vez, Shakespeare, Júlio Verne, mitologia greco-romana, Cruzadas, ciências naturais, dentre tantos outros assuntos.

Acho que ela e eu terminamos fazendo Direito por causa disso: não havia nada de leis nessa coleção e, de alguma forma, talvez tenhamos ficado curiosos em saber o que eram as regras que regiam nossas vidas em sociedade, quem sabe tentando inconscientemente perscrutar a rigidez normativa do genitor, homem cujo barulho das botas pisando naqueles degraus de assoalho de madeira chegava, algumas poucas vezes, a parecer o carrasco que vem buscar suas vítimas rumo ao cadafalso.

De outras vezes, penso, quanto a mim, que a opção jurídica nasceu do desconforto de saber que meu pai vagara de Norte a Sul da Bahia (ora em Caravelas, ora em Remanso; ora em Canavieiras, ora em Jacobina) enquanto chefes postiços, nomeados pela Ditadura Militar, esperavam que ele pedisse exoneração pela opção política que fizera, embora nem fosse radical assim.

Essas recordações dos anos 1960 afloradas hoje por Jacqueline marejaram-me os olhos, o que confirma que na infância estão mesmo nossos melhores lances de vida, ainda que, debaixo de muito chororô, tivéssemos de enfrentar a esterilização, pela chama do candeeiro, das agulhas das vacinas públicas,  apesar de acostumados  a receber no bumbum as temidas injeções dadas pela habilidade paterna com seu indefectível estojo metálico de seringas de vidro,  já que não confiava em deixar que ninguém sem maior experiência que ele pudesse se prestar a esse ofício com seus filhos.

Jacqueline sempre foi de bordar suas fantasias com os efeitos mais líricos, desde que por lirismo se entendam também as travessuras. Uma delas foi historicamente deprimente; a outra, quase fatídica. Não compreendia o que era aquela paixão numismática de meu pai. Então, um dia, peguei todas aquelas moedas raras juntadas por muitos anos e saí distribuindo na rua. Ela me ajudou. Algumas foram recuperadas. Outras, jamais ele conseguiu adquirir em substituição. De outra vez, aos três anos, acompanhado dela, com quatro, entrei num veículo chamado Rural, da Willys, que estava estacionado numa ladeira (era o único da cidade), desengrenei-o e me pus a fingir controlar o volante, enquanto ela gritava: “viva, João já sabe dirigir”.

Aquelas duas crianças loiras (parece que, quando se é loiro, se passa para os cabelos pretos sem sofrer com os grisalhos – embora eu suspeite que essa teoria seja tão funcional quanto eu poder dirigir um veículo aos três anos de idade...) tiveram uma meninice feliz tangidas pelo vento dos crepúsculos vespertinos coloridos de eloendros, enquanto disputavam descobrir imagens conhecidas nas formações das nuvens. Sob as estrelas que a escuridão tornava mais luminosas, vários daqueles contos imaginários sobre mundos muito além da Terra, narrados por minha mãe, Aparecida - uma mulher  que até então não tinha passado por uma escola formal, mas dona de notável sensibilidade artística refinada pelo histórico Instituto Mauá -, legaram crenças mais tarde responsáveis por alimentar nossas esperanças na hora dos embates travados no teatro das vaidades mundanas.

Cruzei os dedos para que Luciano Huck não perguntasse à minha irmã se ela tinha fé em Deus. Provavelmente, num País religioso como este, pudesse perder adesões da torcida.

Nesse ponto divergimos profundamente de perspectiva: como espírita, sou fortemente cristão. Já nosso pai, sempre desconfiou de propósitos inconfessáveis nos discursos dos representantes de Deus na Terra. Ainda assim, em nome da isenção pedagógica, algum tempo antes de nascermos, adquirira também uma “História Ilustrada do Mundo Bíblico”, faturada no dia 18 de novembro de 1963, há exatos 54 anos, com a qual me deliciei durante muito tempo. Jacqueline nunca chegou nem ao menos a abri-la. Suas inquirições a guiaram a outras vias do pensamento, parecendo-lhe então ser muito mais lógico sustentar, meio que à maneira de Freud, que não é o ateísmo que precisa ser explicado, mas sim a crença, que fala de um mundo etéreo melhor enquanto por aqui as pessoas em carne e osso estertoram nos corredores de hospitais, onde a educação pública ainda claudica, a corrupção grassa e o preconceito prestigia inconsequentemente a deplorável branquitude de pés de barro à qual todas as melhores oportunidades são asseguradas.  

Para os fanáticos obsessivos, que pululam neste País enquanto protegem suas conveniências mais vergonhosas com manipulações de toda ordem, não ter religião, mesmo que meramente especulativa, interesseira e mesquinha, é um escudo de latão contra um fuzil. A Lógica, ah, a Lógica não aprova esse modelo de truque ideológico com que se pensa enganar o próprio Criador.

Parabéns, Jacqueline. No fundo, os merecidos trezentos mil se transformam em centavos, quando divididos pelos milhões de minutos de dedicação ao conhecimento libertador.

Vitória da Conquista, Bahia, 18 de novembro de 2017.

João Batista de Castro Júnior, irmão de Jacqueline. 

 


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