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ALGUNS PASSOS DO BOM ORADOR

ALGUNS PASSOS DO BOM ORADOR

JOÃO BATISTA DE CASTRO JÚNIOR. Professor do Curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, campus Brumado. Mestre em Linguística Histórica e Doutor em Linguística e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Juiz Federal titular da 1ª Vara da Subseção Judiciária de Vitória da Conquista, Bahia. Ex-Promotor de Justiça. 

 

Há muitas abordagens e técnicas de oratória pelo mundo. Todas, de um modo geral, são muito úteis, pois falar bem prossegue capturando a atenção de pessoas interessadas, embora  muitas delas ajam com a mesma motivação de quando ouvem alguém falando inglês fluente ou quando viajam ao exterior: o desejo de aprender se acende, mas a ele se sucede perda de interesse de começar, ou perda de motivação em continuar quando se percebe que poucos meses de curso não são suficientes para entender as letras das canções tocadas nas rádios.

Tal como para falar uma língua estrangeira, não há regra curta e infalível para falar bem. Existem técnicas e passos a ser aprendidos e apreendidos.

Alguns desses passos vão ser a seguir apresentados na forma de nove sugestões, que não excluem outras que existem em obras especializadas. O foco aqui é o orador de tribuna, o que não torna impertinentes as sugestões para outros domínios oratórios, a exemplo do debate.

1. “Nascuntur poetae; fiunt oratores”, ou seja, “os poetas nascem; os oradores fazem-se”. Máxima latina mais que apropriada e que convida ao caso de Demóstenes, o mais famoso orador da antiguidade grega, nascido gago (embora muito provavelmente sofresse de uma das afecções a que a Fonoaudiologia dá hoje os nomes de Taquilalia e Taquifemia, mas que não se confundem com gagueira).  

Mesmo com essas dificuldades, que o fizeram sofrer com as vaias nas suas primeiras experiências oratórias, decidiu-se a superá-las valendo-se de método pitoresco: enchia a boca de pedrinhas, punha-se a falar à beira da praia procurando dominar-se ante o barulho das ondas, exatamente como deveria se comportar perante os apupos dos auditórios. Noutras vezes, encostava ao peito a ponta de uma espada para evitar gestos desengonçados.

Esses e outros dados biográficos de Demóstenes, de que Plutarco nos dá notícia (Vidas paralelas. Tradução de Sady Garibaldi. São Paulo: Atena Editora), serão úteis nos próximos itens para demonstrar que ser bom orador é meta perfeitamente alcançável, ao contrário de querer tornar-se poeta inspirado, pois se pode aprender tudo de métrica, como construir versos alexandrinos ou decassílabos, sem que nem por isso daí nasça um poeta de valor. Exemplo clássico deste último caso é o do escritor português Antônio Feliciano de Castilho , que era uma virtuose da versificação formal, mas sem jamais ter conseguido alçar encantadores voos poéticos. Ou seja, versejava “invita Minerva” (“a despeito de Minerva”), expressão com que o poeta romano Horácio (Ars Poetica, 385) se referia aos que não tinham inspiração, contudo, ainda assim, insistiam em escrever.

Por outro lado, Rui Barbosa é um caso que ilustra positivamente: orador notável, logo se deu conta dos seus limites no terreno poético depois de compor alguns poemas, os quais, mais tarde, envergonhado, chamará de “pecadilhos da mocidade” (Obras completas de Rui Barbosa: vol. I 1865-1871, tomo II, Poesias. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura, 1971, p. IX). Seu caso ainda é demonstração emblemática da sentença em latim que encabeça este tópico: Rui nunca perdeu a oportunidade de falar em público, convencido de que somente assim poderia reunir as qualidades de grande orador em ação.

Sem prática, pode-se frequentar os melhores cursos, ter os melhores professores, mas nunca ninguém em tempo algum se tornará grande orador por isso.

A ausência de ousadia prática não tem apenas deixado de produzir oradores; na verdade, tem afetado também o rendimento em outras áreas, uma das quais é o já citado aprendizado de língua estrangeira. Um acontecimento pessoal é bastante esclarecedor a esse respeito: há dois anos, acompanhei um casal de irlandeses, que estava a passeio no Brasil a meu convite, a uma clínica pediátrica em Salvador para exame de infecção bucal em seu bebê de dois anos. A pedido deles e da médica, fui ser o intérprete na consulta. Mas me surpreendi quando percebi que ela entendia tudo naquela fala de acento irlandês, o que reduziu minha ajuda a traduzir o que ela explicava em português sobre a infecção.  Quando indaguei da dificuldade em se expressar em inglês, me revelou que frequentara bom curso durante mais de cinco anos, ia a congressos no exterior, mas nunca conseguira vencer a inibição para falar desde as primeiras aulas, habituando-se apenas com a intimidade auditiva.

Não se trata certamente de caso único, como já identifiquei entre tantos outros. Sem experimentação prática, então, fica embaraçada qualquer aspiração de sucesso no terreno da eloquência e da retórica. 

Plutarco relata que Demóstenes, além dos exercícios à beira da praia, se fechava por meses dentro de casa, treinando e copiando Tucídides, além de praticar em frente a um espelho. Steven Pinker, na obra O instinto da linguagem, diz que o ser humano tem mesmo imperiosa vontade de falar, nem que seja com um cachorro. Por aí se vê que essa necessidade é fundamental na conquista oratória, embora  os ensaios em público quase sempre esbarrem na natural timidez do principiante.

Um bom truque é não começar por onde se espera que qualquer um se saia bem, ou seja, ambientes onde a tribuna é corriqueira. Lá estarão pessoas fazendo caras e bocas que podem afetar a programação mental construída previamente sem experiência real.

Recomendável, então, iniciar praticando em outros ajuntamentos de menor exigência dos circunstantes: reuniões de família, de amigos, de condomínios, na roça etc. Mas nessas ocasiões deve-se esforçar por construir uma ordem mínima, pois isso ajudará a buscar sempre a ideia de que discurso tem início, meio e fim, o que convém ser entendido como sentido discursivo, não como receita de bolo na ordem dos assuntos.

Não deve ser fator de desmotivação pensar-se que o domínio em plateias menos exigentes impede o mesmo desempenho nas mais refinadas. Não impede.  Aprender eximiamente a arte de direção de um veículo longe dos grandes tráfegos não inibe enfrentá-los quando for necessário. Pode-se até não engatar maestria no primeiro contato com essa nova experiência de trânsito, mas o domínio da máquina e das regras terminará prevalecendo sobre a apreensão inicial. O mesmo se dá no terreno oratório.  A fórmula então é mesmo a prática. Não há outra.

Quando se vai treinar para uma tribuna, não se deve esquecer de arrebanhar mais dados do que o tempo permitido para falar. O escritor John Gunther, citado por Dale Carnegie em obra até hoje recomendável, disse acerca de sua preparação para uma palestra: “Sempre procuro reunir dez vezes mais informações do que as que vou utilizar, de algumas feitas cem vezes mais” (Como falar em público e influenciar pessoas. 16. ed. São Paulo: Record, p. 61) 

A explicação é simples: embora o cérebro tenha capacidade para reter esses dados em situação de normalidade, há bloqueios inevitáveis de informações no encadeamento que se pretende fazer, porquanto a apreensão com a expectativa alheia é uma variável original na hora H.

2. Começando: o pontapé inicial é o momento mais aguardado do público. Há curiosidade natural pelo tom da voz do orador, por seu desempenho tranquilo etc. Então, o início tem que ser trabalhado. Uma citação costuma ser forma eloquente de começar.

Tome-se a hipótese de palestra motivacional para plateia constituída de pessoas que atravessam desilusão por rompimento amoroso: o orador, depois de anunciado, segue lentamente em direção da tribuna, se empertiga e faz uma citação de La Rochefoucauld, antes até dos cumprimentos: “o coração é uma gestão perpétua de paixões, de forma que a ruína de uma representa, quase sempre, o nascimento de outra”.

O efeito estilístico desse começo pode ser encantador. Portanto, por onde e como se vai começar fazem parte da estratégia oratória, ainda que possa haver algum embolamento no meio de campo, pois o final, adiante tratado, pode remediar bem isso. Mas o começo merece atenção, porque pequenos tropeços podem afetar a autoconfiança do orador iniciante.

3. Emoção. Conta Plutarco, na mesma obra citada, que um homem foi procurar o grande orador grego para que este assumisse sua causa. Na narração que fez, relatou que tinha sido “espancado”. Demóstenes duvidou, ao que o homem retrucou indignado, dizendo “—   Como, Demóstenes! Eu não apanhei?”. O historiador grego então descreve a resposta do exímio orador: “—   Oh! agora eu reconheço a voz de um homem que foi maltratado e que apanhou, — respondeu Demóstenes, tão persuadido estava de que o tom e o gesto contribuem poderosamente para infundir confiança naquilo que se diz”.

Sem emoção, sem a convicção emotiva do que se fala, nenhum discurso chegará a empolgar. Esse componente sempre esteve na alça de mira dos grandes oradores. Quintiliano, orador romano do primeiro século cristão, que era também professor de eloquência e retórica, já dizia: "Pectus est quod disertos facit", ou seja, "é o coração que faz os eloquentes". Séculos depois, um famoso moralista francês e também orador, La Rochefoucauld, atualizava esse ensinamento ao escrever que “les passions sont les seuls orateurs qui persuadent toujours. Elles sont comme un art de la nature dont les règles sont infaillibles; et l'homme le plus simple qui a de la passion persuade mieux que le plus éloquent qui n'en a point" (Maximes et réflexions morales. Ménard, 1817, VIII). Ou seja, “as paixões são os únicos oradores que convencem sempre, são como uma arte da natureza com regras infalíveis: o mais simples dos homens persuade melhor com paixão do que o mais eloquente sem ela”).

É preciso notar que emoção necessária à eloquência não deve ser confundida com outras duas situações: 1) estilo retumbante e grandiloquente, que ainda sobrevive enjoativamente nas falas de muitos políticos em comícios e tribunas parlamentares. Deve ser evitado. É tão cansativo para o ouvinte quanto o longo discurso lido; 2) perda de estribeiras: isso pode ser um tiro no pé, já que o estado de desequilíbrio emocional retira a capacidade de encadeamento racional dos argumentos. No caso de debate, não é menos prejudicial, por impedir o surgimento espontâneo das tiradas de bom humor, o qual, ao lado da ironia, é componente necessário para o sucesso do debatedor.

Enfim, até a emoção deve ser planejada.

4. “Intelligenti pauca”: "A quem sabe compreender, bastam poucas palavras".  Esse ditado não contradiz a recomendação de que se deva agenciar muito mais informações do que se conseguirá passar no limite de tempo. Ao contrário, é um convite a que o discurso tenha foco e fuja das repetições tautológicas, ou seja, dizer o mesmo por palavras diferentes.

La Rochefoucauld, na obra  já citada, escreveu, com muito acerto, que “la véritable éloquence consiste à dire tout ce qu'il faut, et à ne dire que ce qu'il faut", isto é, “a verdadeira eloquência consiste em dizer tudo o que se deve e em não dizer a não ser o que se deve”.

Não raro o iniciante consegue encaixar bem uma ideia e, percebendo a boa recepção dela, passa a reproduzi-la repetitivamente de novas formas para quem já compreendeu a substância do assunto, esquecendo-se que a função do orador de tribuna não é a mesma da didática de sala de aula, em que os retornos temáticos são imprescindíveis.   

Os franceses têm sobre isso um provérbio certeiro: “Le mieux est l’ennemi du bien”, que pode ser traduzido como “o melhor é inimigo do bom”. Se se disse bem algo no encadeamento do discurso e, percebendo-se mais adiante que faltou dado adicional que só cabia encaixar lá trás, não se interrompa a sequência discursiva na tentativa de inseri-lo. Isso produz efeito agressivo na estética oratória por quebrar o ritmo. Se a ideia já foi passada e bem, querer torná-la ótima nessa configuração é danoso.

5. “Ne sutor ultra crepidam”.  Plínio, o Velho, escritor, historiador e gramático romano, em sua Naturalia Historia (XXXV, 85), conta que o célebre pintor grego Apeles, depois de se pôr detrás de suas tela e de ter ouvido crítica pertinente de um sapateiro sobre defeito na pintura de uma sandália, não se conformou com o entusiasmo deste em querer criticar outros pontos de sua obra e disse-lhe essa frase em latim, que significa “o sapateiro nunca deve ir além das sandálias”.

Essa advertência serve como uma luva ao orador e ao debatedor em geral. Avançar para além do que se conhece é puro blefe e quase sempre termina em puxão de orelha, afinal, nunca se sabe quem estará ouvindo naquele instante ou mesmo depois no caso de ficar o registro. Uma coisa é sustentar um blefe num momento de encruzilhada oratória, como ocorre em júris criminais, porque aí todo expediente retórico é válido em prol do resultado final. Outra bem diferente é uma fala dita fora desse ambiente específico. Mesmo que tenha tido sucesso oratório a exposição inicial, a desconstrução da tese fará com que ele seja esquecido.

6. Palavras fáceis e palavras complexas: Horácio, o grande poeta latino, na obra Ars Poetica (item 97), adverte contra as “sesquipedalia verba”, ou seja, “palavras de seis pés de comprimento”. As palavras pouco conhecidas costumam encantar, como tudo que é novo. No terreno da eloquência, nada mais perigoso do que deixar fascinar-se com certas expressões e, sem estar habituado a elas, resolver enunciá-las no meio de um discurso. O resultado pode ser desastroso e altamente inibidor de futuras aventuras.

Prefira-se o estilo corrente de falar. Fale-se sobre o que se sabe e como se sabe, desde que não se caia na seguinte armadilha que pode estar escondida nisso: o excesso de coloquialismo pode ser tão negativo quanto o gosto por termos retóricos mal pronunciados. É que frequentemente ouvem-se oradores repetindo padrões coloquiais na tribuna, a exemplo de “deu merda” para significar o mau resultado em qualquer coisa. Entre os mais jovens, ficou comum terminar uma sentença com “véi (=velho), isso aí foi zoeira”.

O gosto por períodos curtos pode constituir um problema, já que nenhum discurso ficaria muito agradável ao se parecer com um grande cobertor cheio de pequenos remendos. O resultado seria mais ou menos como se, exageradamente, se unissem numa longa fala vários períodos como este: “bicho, ques cara besta e aí véi eles falou que a gente tinha que vazar dali”.

A vigilância constante, assim, ajuda a corrigir os vícios, para que não se corra o risco de usá-los automaticamente na tribuna. Conheço pessoas com bom grau de escolaridade que falam “questã” por “questão”, “empleita” por “empreita”, “célebro” por “cérebro”, “sombrancelha” por “sobrancelha”, entre vários outros exemplos. Conheço ainda advogados que dizem “reinterar” em vez de “reiterar”, “consiguine” em vez de “consigne”. Pude identificar, nas minhas observações, que esses desvios quase sempre derivam de hábitos linguísticos aprendidos em casa ou nos círculos mais corriqueiros de amizade. Qualquer que seja a origem, na tribuna isso é um “monstrum horrendum”.

Já o trecho “ques cara besta” tem variações mais comuns do que aparenta. Aí está exposta inclusive a dificuldade com realizar a regra do plural.

Quanto aos primeiros vícios, não é difícil ao candidato a orador evitar o transporte, para a tribuna, de coloquialismos indigestos: treinar, nas próprias rodas de conversas, falas mais enxutas e menos cheias de recorrências giriescas ajuda bastante. Não que isso queira dizer que se deva falar em tom oratório com os amigos, porque logo se ficará sem interlocutor para os treinos, mais ou menos como eu e alguns amigos fazíamos com um colega de ensino secundário que estava convencido de que tinha voz de locutor de FM: em qualquer lugar onde nos encontrasse, repetia aquela entonação  típica como se estivesse diante de um microfone. Não dava para aguentar suas explanações, que começavam com “boooom diiiiaa, tuuuuudo bem?”. Sentíamo-nos malvados em fazer isso e até pusemos nele o codinome secreto de “o exorcista” por nos afugentar de sua impostação de voz, que era difícil de aturar.

Já com relação à dificuldade com o morfema de plural, a metonímia é boa dica: use-se o singular em seu lugar sempre que possível. Assim é que se pode dizer “o brasileiro come mal” para significar a totalidade dos brasileiros. Dribla-se aí o “s” com muita classe literária. Mas se essa dificuldade não existe, prefiram-se as sentenças em que os sucessivos “s” de plural aparecem, pois sua elocução tem mais efeito retórico, como nessa citação de La Rochefoucauld em português: “Sentiríamos vergonha de nossas mais belas ações se o mundo conhecesse suas reais motivações”.

A perfeita elocução é outro fator de encanto oratório. E aqui a dica é quanto a pronunciar bem as sílabas finais. Não é incomum que se fale com força nas primeiras sílabas e debilidade nas últimas, algo que graficamente poderia ser representado como ʌ. Em outras vezes, se ouvem enunciações como “brincano”, “comeno”, “falano”, por “brincando”, “comendo”, “falando”, o que, somado à ausência de regra de plural, de concordância ou de articulações desembaraçadas, pode deixar penosa impressão oratória.

7. Recorrências estilísticas. Automatismos repetitivos de fim de oração, tal como “isso é um absurdo”, tiram o brilho de qualquer exposição e este em particular parece estar longe de perder o prazo de validade como fórmula de indignação, como aconteceu a outros cujo uso já estava ficando insuportável, a exemplo de “o sistema é bruto”.

Deve-se empreender esforço para não se deixar arrastar por esse persistente “é um absurdo” e suas variantes, seja como palestrante, seja como debatedor. É possível evitá-lo  com elegância dizendo “choca a razão”, “inconciliável com a razão”,  entre outros torneios fraseológicos.

A advertência vale, todavia, para todas as recorrências que vêm e ficam mais ou menos tempo. 

Em língua inglesa se costuma denominar o interesse decrescente desse uso constante como “law of diminishing returns”, algo como “lei das recorrências descendentes”. Para exemplificá-la, basta lembrar a famigerada pergunta “é pra ver ou pra comer” quando se oferece “pavê” no Natal. Tornou-se uma fala odiosa. O efeito das estereotipadas repetições no discurso soa parecido.

8. Prolepse é uma figura de retórica com que se refutam antecipadamente as objeções .  Isso é válido para palestrantes e debatedores quando sustentam opinião ou tese. Tende-se a perder a capacidade de prefigurar a variável da pergunta do “adversário” quando se está encantado pela beleza da própria tese. O mais adequado é que o orador que vá sustentá-la se ponha previamente a discuti-la com pessoa capaz de levantar objeção séria, porque isso dará a ele tempo para refutação consistente. Na ebulição oratória, segundos de silêncio seguidos a um argumento contrário, no momento das perguntas, podem ser tidos como sinal de fraqueza.

9. “In cauda venenum”. Essa expressão, que se traduz por “na cauda, o veneno”, os romanos, referindo-se ao escorpião que tem a peçonha na cauda, aplicavam ao discurso, em cujo final o orador deve concentrar toda a sua malícia.  A peroração, o lance final da performance oratória, merece, então, mais cuidado e treino. Modernamente, são utilizadas breves narrativas de conteúdo moral como fecho retórico. São válidas, desde que não incorram no erro de repetir uma que até os gatos de casa já conheçam.

Há um tempero clássico do discurso que se chama sal ático, como era referida a graça e elegância dos gregos da região da Ática, cuja capital era Atenas. Aí entram humor e ironia. Dizer da medida certa do humor irônico não é algo fácil. Mas o excesso não é difícil de identificar. Se o objetivo é sustentar tese acadêmica ou científica, o humor entra onde não cabe a comédia. E a diferença não é desimportante: na comédia se produz alegria efusiva, com piadas e trejeitos. No humor, a fina ironia percebida pelo destinatário. Numa palestra sóbria, cabe humor e nenhuma comédia.

A pitada humorística pode estar inserida na narrativa de um caso, o que, a propósito, exige atenção: se foi esquecido algum detalhe insignificante como a cor da casa, uma garagem, a marca do veículo, é desaconselhável tentar lembrar dizendo-se, por exemplo, “um carrão caro, como é mesmo o nome, gente”. Que se diga apenas “um carro de milionário”, “um carro luxuoso”, ou algo parecido, se o nome específico não vier fácil. As pausas para puxar à memória podem tornar o desempenho sofrível. Esses detalhes inúteis, ou seja, as “difficiles nugae” (“bagatelas difíceis”), a que se referia o poeta latino Marco Valério Marcial (Epigramas, II, 86), não merecem perda de tempo. 

O célebre fabulista La Fontaine escreveu: “La grâce, plus belle encore que la beauté”, ou seja, “a elegância é ainda mais bela que a beleza”. Que se prime, então, pela elegância. Machado de Assis tem frase muito conhecida, segundo a qual “há pessoas elegantes e pessoas enfeitadas” (Obra completa. Org. de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Aguilar, 1959, vol. II, p. 117). Essa regra de ouro vale para o bom orador e seus candidatos, que não devem se incomodar com a pompa e circunstância com que outros palestrantes assumem a tribuna geralmente escorados no nome. Que esses touros afamados sejam deixados no seu aparente sucesso, tendo-se em mente que “dente lupus, cornu taurus petit”, isto é, “o lobo ataca com os dentes, o touro com os chifres”, disse-o muito bem Horácio (Sátiras, II, 1, 52).

Brumado, Bahia, 12 de novembro de 2017.

 

* Agradeço aos estudantes de Direito do atual II semestre do Curso da Universidade do Estado da Bahia, em Brumado, o estímulo para que essas poucas sugestões fossem escritas a partir do que tratamos nas aulas de Retórica e Eloquência que ministrei a eles. Agradeço também o incentivo que me foi dado pela Professora Ana Cláudia Zanoni. 

 

 


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