Notícias

ODILON SE DESPEDE DA MAGISTRATURA

ODILON SE DESPEDE DA MAGISTRATURA

                                                   João Batista de Castro Júnior

                                                   Juiz Federal titular da 1a Vara, Subseção Judiciária                                                      de Vitória da Conquista-Bahia.

                                                   Professor do Curso de Direito, Universidade do                                                            Estado da Bahia, campus XX.

 

Em 2004, numa conversa com o colega Odilon Oliveira, que, além de lavrador até os 17 anos, já havia sido Promotor de Justiça, Juiz de Direito, Procurador Federal, relatei-lhe que eu fora vítima de montagem criminosa como Juiz Federal em Salvador: tive minha assinatura falsificada em decisões fictícias. Esse caso terminou bem, pois a Polícia Federal eficientemente conseguiu chegar ao falsificador, um auxiliar de escritório de contabilidade que, ao deparar-se com sentença minha de direito tributário e financeiro, resolveu criar situação para ludibriar o pagamento ao cunhado de dinheiro que este lhe havia emprestado, sempre alegando que o Juiz Federal, no caso, eu, estava em vias de executar o patrimônio de outra pessoa que lhe devia.

Nessa rápida conversa com Odilon, pude conhecer-lhe bem o feeling para a profissão quando disse: “João Batista, exija investigação urgente. Pode ser até coisa menos grave, mas, se não for combatida na raiz, assume proporções inquietantes. As primeiras manobras contra mim pareciam ser insignificantes, mas foram crescendo em volume de tal maneira que minha vida sofreu a reconfiguração que todos vocês colegas conhecem”.

Ao tomar conhecimento da aposentadoria desse primoroso colega, de quem toda a Magistratura Federal se orgulha sem qualquer tipo de controvérsia, ocorre-me de refletir como nossas vidas pessoais se sujeitam a repaginações em nome do cumprimento do dever ético na judicatura.

Há naturalmente o lado encantador nisso tudo, sobretudo para os que vão amanhecendo para o exercício profissional da carreira jurídica. Mas há também a contrapartida de histórias de bastidores relativas a sofrimento e renúncia que algumas vezes se enovelam no carretel do egoísmo e do despeito de certas personalidades, e terminam hipertrofiando a dor dos que abraçam esse ministério.

O penhor do dever cumprido está no reconhecimento sincero de muitos jurisdicionados e colegas. Todavia, entre estes há os que parecem torcer para que você se prenda no visco do escândalo.

Odilon saiu ileso. Legará aos jovens que se seduzem com autores de manuais, de pele e olhos claros, tais como o conhecimento que macaqueiam vindo da Europa e Estados Unidos, a reflexão parafraseada de que a vida é mesmo mais complexa do que todas as teorias e que, para ser bom Juiz, é preciso no mínimo saber que isso envolve devoção quase sacerdotal. Esses moços devem ser alertados também para o fato de que muitos dos que hoje incensam a autoridade judicial, amanhã, quando ela estiver na inatividade, lhe darão o tratamento que se dá à bituca do cigarro que chega ao fim.

Espero que Odilon não seja colhido pelo vórtice do esquecimento. De minha parte, tenho que seu exemplo sem paralelo na Magistratura Federal brasileira será sempre um farol que alerta contra os recifes e encaminha a embarcação com segurança no mar de suas dificuldades. 

Desejo-lhe boa sorte nos seus novos projetos. 

 


Leia mais