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O CABELO ALISADO DE ROSA PARKS

O CABELO ALISADO DE ROSA PARKS

                                                            Braulino Pereira de Santana

                                                            Doutor em Letras e Linguística

                                                            Professor Adjunto da UNEB, Campus I

 

A pureza racial, reivindicada pelas ideologias totalitárias, desafia a base dos discursos de inclusão – a livre aceitação das diversidades como um valor identitário inegociável.

A pureza racial precisa conceber identidades absolutas, quase olímpicas, para se estabelecer como um ponto que não seja comum a todos, mas que deva ser imposto a todos, afastando, portanto, os discordantes, os desenquadrados do ideal estabelecido por sua agenda puritana.

Os seres humanos, nesses termos, reduzidos a estereótipos, formas destituídas de singularidades, de certos conteúdos, só deverão ser aceitos como se fossem bonecos fabricados pela ideologia da estética ideal.

Os consumidores dessas ideologias atuam como se estivessem circulando por mercados simbólicos, averiguando as etiquetas, testando as mercadorias, reduzindo ou aumentando preços conforme as demandas, derrubando os valores, fechando as lojas discursivas. A economia de mercado simbólica orquestra as escolhas da pureza racial – terá valor superestimado o boneco humano que poderá falar ou andar; o boneco de cabelo de plástico encontrará seu consumidor na menina de pai pobre; o de cabelo  “de verdade” será vendido na loja das grifes...

Os adeptos da pureza racial tentarão de todas as formas, azeitadas por sua visão eugenista em chave “reafirmação de etnia, orgulho da raça”  –  o fenótipo deve por si só capacitar o perito a identificar o ladrão ele mesmo, o louco, o vagabundo, o drogado, a prostituta, – fazer-nos crer no ideal estético como substituto do conflito político.

Os ataques ao cabelo alisado da única mulher candidata a reitora nessas eleições da UNEB, fonte de muitos dissabores, descrenças, cobranças, acusações de ser menos negra (como se houvesse um sindicato de negritude a que todo candidato verdadeiramente negro seria obrigatoriamente cadastrado), associado a um ideal de branco de cabelo que deve crescer para baixo, transformam os adeptos da hegemonia estética como protagonista dos embates políticos em militantes provincianos radicais, uma espécie de Black Estado Islâmico Victoria Secret,  em nada muito distantes das milícias defensoras das purezas raciais. Atuam na superfície, sem ao menos descer um pouco para além das roupas ou do cabelo e avaliar as ideias, as filiações, a agenda, o programa, as ambições.

Quando nos damos o trabalho de ultrapassar o cabelo alisado, os quadris, a performance, a maquiagem,  seus ideais de representação, seu programa, a agenda que propõe para os quatro anos na gestão da UNEB, encontramos uma mulher equilibrando-se entre seus limites e suas utopias, como qualquer ser humano.

Os discursos de pureza racial, no entanto, ao exigir um tipo de cabelo das pessoas, reeditam os apriscos simbólicos, e, ao não conseguir entender ou aceitar muito bem a liberdade, colocam-se como inimigos do direito – muita semelhança com leis na França proibindo o uso de véu pelas muçulmanas. Negam às pessoas aquilo que é constitutivo mesmo da natureza humana – a possibilidade aberta de descobrir uma maneira de andar nas ruas. Nada muito distante do apartheid racial que vemos nas tripulações dos aviões Brasil afora, em que se privilegia um tipo étnico. Infantilizam o debate público ao tratar a comunidade de eleitores como crianças incapazes de avaliar o pensamento ao interditá-lo pelo cabelo, e não pelo cérebro ou por outras representações identitarias mais amplas, mais complexas, mais influentes e mais decisivas na vida das comunidades.

O momento que atravessamos nos exige coragem, a coragem demonstrada por Rosa Parks, a mulher negra de cabelo alisado que praticamente fundou sozinha o maior legado americano do século XX – a luta pela igualdade racial que uniu etnias, idades e gêneros.  Quando uma mulher é reduzida ao seu cabelo fundamos a sociedade da vigilância.  


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