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SHEILA: VAI-SE UMA ESPERANÇA.

SHEILA: VAI-SE UMA ESPERANÇA.

                                               Professor Doutor João Batista de Castro Júnior

                                                UNEB, Campus XX, Brumado.

 

Quando, como Coordenador, recepcionei a Professora Sheila Marta na UNEB em Brumado, percebi logo tratar-se de um caráter cinzelado pelo bom senso, naqueles trinta segundos que os franceses dizem ser suficientes para conhecer uma personalidade.

Ela não era meu espelho, mas bem que pode ser um dos meus ideais de conquista, já que eu, um espírito sacudido pela velocidade das emoções, pelo sobressalto das paixões, precisava da calma ataráxica daquela distinta senhora, cujo método cartesiano das palavras ajusta-se como uma luva à elegância dos seus gestos comedidos, na justa proporção dos que trescalam o aroma feminino da mais invejável classe.

Lastimável que a administração central da UNEB, em Salvador, de ordinário tão distante dos matizes sertanejos, não tenha tido a boa vontade de apertar no seio de Brumado essa ave fulgurante e canora, pois aqui, ao contrário, nunca faltou a ela o abrigo das emoções sinceras. Mas, de lá, de lá faltou boa vontade do Reitor e competência de sua Procuradora Geral, que já passou da hora de aprender Direito Processual Civil.

Todos os meus alunos nessa disciplina sabem o que é pedido implícito, ou seja, se o Tribunal de Justiça da Bahia determinou que Professora Sheila fosse empossada no cargo, passa a ser consequência lógica que a ela deva ser paga a remuneração compatível. A leitura do RE 100.894-6/RJ, do Supremo Tribunal Federal, e do AI 693.564-4-AgRg,  do Superior Tribunal de Justiça, arrumaria as cabeças juridicamente desalinhadas da Procuradora Geral da UNEB quanto ao que é pedido implícito para que, quem sabe, pelo menos nos escaninhos silenciosos da consciência, pudesse lamentar ter deixado de remunerar, por mais de 14 meses, uma professora que nem por isso deixou de cumprir seu ofício docente.

A atual administração central da UNEB mostra assim sua assepsia institucional e sua ausência de instinto materno, pois não há mãe que não abrigue os filhos no seu regaço tépido, a não ser a Medeia em que essa mesma administração se transformou espalhando, ainda como Cassandra, o terror da intolerância, como se todas vozes devessem ser abafadas, toda cabeça altiva guilhotinada, para que os demais possam sempre continuar de cócoras.

E agora o sopro frio do infortúnio bafeja novamente a UNEB em Brumado, um campus que parece predestinado a ficar fora do mapa acadêmico, como se não lhe fosse dado querer a cidadania que uma Universidade tem o dever de assegurar a todos.

Vá, Professora Sheila, vá levando consigo a esperança rósea que sobrevoou nossos horizontes. Só tenho a agradecer-lhe por ter me honrado com a distinção de ter sido sempre o primeiro a receber suas comunicações, inclusive essa tão devastadora da sua resolução de ir-se embora daqui. Lamento que meus esforços, até o último instante, a ponto de tratar do assunto com emissários que o Governador enviou esta semana a Vitória da Conquista para discutir comigo sobre um tema processual, tenham sido inúteis. Perdoe-me, essa batalha eu perdi.

Guardarei para sempre sua doçura, sua atenção e seus “souvenirs” trazidos para mim da sua última viagem à França, o berço das lutas mais românticas e das liberdades mais democráticas, que bem deveriam nos inspirar na UNEB-Brumado, que uma meia dúzia de irresponsáveis quer transformar em celeiro da retórica estéril e inconsequente.

Da mesma França só posso lhe oferecer, por me faltar estro para compor, o rasgo estético dos versos de Paul Verlaine no poema  "Il pleure dans mon coeur" (Chora no meu coração):

C’est bien la pire peine – É seguramente a pior tristeza
De ne savoir pourquoi – Não saber por que
Sans amour et sans haine – Sem amor e sem ódio
Mon coeur a tant de peine! – Meu coração tem tanta tristeza!

 

 

 


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